domingo, 22 de abril de 2012

Pretexto



Aconteceu que ouvi várias músicas que me lembraram de você e eu perdi o sono.
Pensar em você é uma constante, as músicas são apenas um pretexto.
Aliás, pretexto é o que a gente procura o tempo todo pra manter contato.
Parece que falta coragem pra assumir uma necessidade de estar junto.
E eu mais uma vez uso um pretexto pra dizer que gosto de você.
É isso que eu queria dizer desde o começo: eu gosto tanto de você que não consegui dormir pensando sobre nós.
A propósito, posso usar essa declaração como pretexto pra sussurrar isso em teu ouvido qualquer dia?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quem se importa?


Eu quis entrar no mar, e o fiz. Eu não trajava roupas apropriadas, mas quem se importa? Eu quis entrar no mar, do jeito que eu estava.  Escuto sempre que “vontade dá e passa”, entretanto qual a graça de querer algo e não fazer? É o mesmo que sentir fome e não comer.
Eu quis entrar no mar e o fiz. Caminhei lentamente mar adentro, as ondas me faziam carinho, sentia a água me envolver, ensopar minha roupa, me envolver no seu balanço e eu mergulhei com tanto anseio que quando emergi desse mergulho me deliciei com a brisa me fazendo carinho e me abandonei nesse momento de entrega... Sem explicações ou preocupações sobre como eu sairia dali. Pés descalços, roupas encharcadas, rosto lavado, cabelo desarrumado. Mas, quem se importa? Eu precisava de um encontro com o mar, a brisa e sentir-me envolvida, atraída, e ter  esse carinho e essa sensação incrível de liberdade que o mar me proporciona.
Agora que eu saio do mar, com as idéias se acalmando no embalo suave das águas, eu ouço um blues em meio ao ruído louco do cotidiano e da rotina alheia. E só agora me apercebi de que um senhor está tocando um violão com uma afinação chorosa, ele chora uma velha canção de amor que diz:

I don't know what love is

But I think I must have it bad
You know I don't know what love is, people
But I think I must have it bad
You know some people say love is just a gamble
But whatever it is, it's enough to drive me mad
They say love is just a proposition, people
It's strictly a game of give and take
(trecho de 'Gambler's blues, B.B King) 

Que eu não saiba o que é o amor e que ele me torne louca. Mas que eu o viva e o sinta. Porque aprendi que existem coisas que explico e outras que sinto, apenas sinto. E que assim seja... Afinal, quem se importa?


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O velho e o moderno


Recentemente voltei a ler dicionários. Aurélio, Michaelis, Oxford. Apenas abro e leio qualquer palavra, apenas por curiosidade, nos minutos vagos no meu quarto, no meio das minhas bugigangas.
Gosto de descobrir que às vezes, empregamos palavras no sentido errado. O caso de “relevar”, por exemplo, que geralmente empregamos no sentido de “esquecer”, mas significa exatamente o contrário.
Melhor ainda é descobrir uma palavra “nova”, palavras que nunca tinha usado antes. Ou me deparar com palavras que só encontro nos livros de Machado de Assis. E palavras que mudaram a grafia com tempo, “cousas” da modernidade.
Paro meus olhos entre as páginas dos meus dicionários e me questiono: como poderemos aposentar os livros impressos?
Sei que muitas coisas vieram para revolucionar e melhorar algo. Mas, por que voltamos a produzir long plays se temos Ipads? Por que diabos ainda usam-se óculos se existem as lentes de contato? Por que não parou a produção de relógios analógicos se os digitais são tão mais práticos?
O velho e o moderno convivem e qual o problema em conciliar os dois? Por que não podemos ter construções antigas e modernas no mesmo espaço? Por que não ter o kindle comprado pela internet e o velho livro garimpado no sebo na mesma mesa de cabeceira?
Nós somos sempre tendenciosos ao novo, ao moderno... Mas não podemos esquecer que são as coisas antigas, as pequenas relíquias que temos em nossa casa, ao nosso alcance que são as coisas mais preciosas, as mais legais e que – paradoxalmente – nos fazem valorizar essas modernosas tralhas todas que vemos surgir na velocidade da luz.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ritual de despedida

Não estou certa se chorar seria uma boa solução para isso tudo, mas se eu te encontrasse agora, eu choraria.
Eu não sei se resolveria alguma coisa. Mas sei lá... chorar deixa a gente mais leve. Faz a gente se sentir mais confortável. Eu nem sei se falaria alguma coisa.
Eu só deixaria que você visse minhas lágrimas e percebesse o significado delas e partiria.
Para sempre.
Sem dizer uma palavra sequer.
Lágrimas são um ritual de despedida.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Intrépida Fernanda. Ou Como descobrir o significado das palavras 2



Fernanda estava insatisfeita e caminhava triste. Seus olhos não tinham o brilho de antes e sua rotina se tornara pesada e monocromática. Em um dia cinza, Fernanda apercebe-se de uma necessidade inadiável de mudar. Tudo se tornou insuportável. Como que impelida por uma necessidade inexplicável, Fernanda saiu de sua rotina de secretária e tornou-se artesã. Sem pensar. Sem ter medo da mudança. Saiu do lugar comum a que se aprisionara e fazendo jus a seu nome, trocou suas roupas, trocou seus hábitos e mudou de vida. Abriu um ateliê na garagem de casa e começou a produzir filtros de sonhos.  E foi assim que Fernanda, cujo nome significa “ousada”, descobriu o significado da palavra Intrepidez.

intrepidez
in.tre.pi.dez
sf (intrépido+ez) 1 Qualidade de intrépido. 2 Falta de temor; ânimo, coragem, denodo. 3 Ousadia.

domingo, 11 de setembro de 2011

Como descobrir o significado das palavras 1


Luiza desfilava pelas ruas com seu vestido rodado. Despretensiosa. A cada passo de Luiza, um suspiro de Pedro. A cada movimento que o vento fazia nos cabelos de Luiza, o movimento suave dos atentos olhos de Pedro.
Pedro amava Luiza secretamente. Luiza nem sabia quem era Pedro.
E assim Pedro descobriu o significado da palavra platônica.

pla.tô.ni.co
(do grego platonikós) 1 Relativo a Platão ou à sua filosofia. 2Desligado de interesses ou gozos materiais; ideal, casto: Amor platônico. 3 Sem efeito

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Mantra

Ela repetia para si a mesma frase todos os dias. Inventou um novo mantra. Uma velha maneira de tentar se convencer de que as coisas mudariam. A todo tempo repetia a mesma frase. Uma oração ensaiada. Uma música feita só com refrão, poesia de único verso.
Repetia incessantemente, tentando esquecer. Mas só fazia lembrar. O mantra tornou sua dor corriqueira. Daquela sensação estranha desbotaram as cores, apagou o brilho e tudo perdeu importância. A única lembrança daquele período é o mantra. A mesma velha e repetida frase. Um clichê. Uma tatuagem invisível...

"A Paixão é como um deus que quando quer me toma todo o pensamento. Dirige os meus movimentos, meu passo é teu, meu pulso é desse todo poderoso sentimento."